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"A BANALIZAÇÃO DA INJUSTIÇA SOCIAL"

 

 

"A BANALIZAÇÃO DA INJUSTIÇA SOCIAL"

A Meditação sobre o pecado nos Exercícios Espirituais

Por Inácio Neutzling, SJ

(estou colocando esse texto sem autorização do autor ainda, mas estou procurando entrar em contato. Espero que ele não a negue. Se não concordar, por favor, envie-me um e-mail (na página principal tem), que retiro imediatamente.É um texto de suma importância, muito esclarecedor para os que buscamos nos conscientizar do nosso papel de filhos e filhas de Deus no mundo criado por Ele. Do nosso papel de cidadão do Reino.)

 

***

 

"As Meditações sobre o pecado nos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola (EE) são precedidas pelo Princípio e Fundamento, que pode ser visto em três aspectos: 1. Quem sou eu, Senhor? 2. Quem és tu, Senhor? 3. Qual é o teu sonho, Senhor ? Se no primeiro ponto do Princípio e Fundamento o(a) exercitante é conduzido (a) a assumir a história da sua vida, se no segundo ele/ela se descobre apaixonadamente amado(a) por Deus, no terceiro momento lhe é manifestado o grande sonho de Deus, o seu projeto de filiação, fraternidade e liberdade.

O Sonho de Deus

O grande sonho de Deus consiste em sermos todos filhos e filhas de um mesmo Pai, por isso irmãos e irmãs. Fomos criados para sermos filhos e filhas no Filho, portanto, irmãos e irmãs. "Não há mais nem judeu nem grego; não há mais nem escravo nem homem livre, não há mais homem e mulher", exclama Paulo em Gl 5,28. É nesta gloriosa manifestação de Deus que se faz na experiência do exercitante, que se funda a 'fraternura' cósmico-universal, tão maravilhosamente compreendida pelos grandes mestres e mestras espirituais. Inácio afirma "que Deus, o homem e o mundo estão inter-relacionados de uma maneira providencial e transparente" (1). O projeto de fraternidade cósmico-universal, na linha da grande intuição de Francisco de Assis, exclui toda e qualquer forma de dominação. Na medida em que nos colocamos sobre as outras pessoas, sobre a natureza e as criaturas, cortamos a inter-relacionalidade e rompemos com a fraternidade.

O "Princípio e Fundamento" (nos EE), tem como fruto a indiferença (EE 23). Para Inácio, a "indiferença" é a expressão da liberdade. "É para a liberdade que o Cristo nos libertou" (Gl 5,1). Liberdade frente às outras pessoas, frente a mim mesmo, frente às coisas. Nisto consiste a pobreza, segundo a tradição espiritual que tem a sua expressão mais lídima em Francisco de Assis. Todas as coisas clamam: "Quem nos fez é ótimo!" (2). Não as possuímos, porque a posse pressupõe o dominium, e este corta a relação, isto é a pobreza: expresão profunda da liberdade frente às coisas. A pobreza consiste na capacidade de respeitar a relação comigo mesmo, com as outras pessoas, com o universo, ou seja, respeitar, profundamente, a inter e a retro-relacionalidade. É esta liberdade que permite à pessoa humana ser cortês. Cortesia (3) que inspira o modo-de-ser no mundo como cuidado (4). Modo-de-ser-cuidado que se manifestou de maneira proeminente em Jesus de Nazaré, que o(a) exercitante é chamado(a) a contemplar na Segunda Semana. Ele revelou à humanidade o Deus-cuidado experimentando Deus como Pai e Mãe divinos que cuida cabelo de nossa cabeça, da comida dos pássaros, do sol e da chuva para todos (cf. Mt 5,45). Ele fez da misericórdia a chave de sua ética. "Vendo a multidão, moveu-se de compaixão, porque estava cansada e abatida como ovelhas sem pastor" (Mt 9,36).

Pecado: "Não quero mais ser filho! Não quero ser irmão!"

No entanto, este sonho de Deus é rasurado, rasgado e desfeito por nós. Isto é o pecado. O que é o pecado? O pecado é sempre quebra de relações. Não quero ser mais filho! Não quero ser mais irmão! Este é o pecado que meditamos na Primeira Semana. A essência do pecado consiste na ruptura com os outros e com as coisas. O exemplo paradigmático nos é dado pela parábola do filho pródigo (Lc 15, 11-32). Não querendo mais ser irmão/irmã, filho/filha, passo a ser senhor. Instaura-se a relação de poder, de dominação. Eu sou o senhor! E como senhor me apodero, subjugo, domino, arraso e destruo a natureza. A outra pessoa, não sendo mais irmã, passa a ser alguém que domino, que coloco a meu serviço. Mais ainda: a pessoa humana passa a ser uma coisa que uso enquanto me serve. Não me servindo mais, descarto-a. É o que os teóricos da grande tansformação ético-cultural, hoje, descrevem como a maior característica do capitalismo na época moderna: ele conseguiu transformar tudo em mercadoria, isto é, em coisa que se compra e que se vende. Não podendo mais ser comprado nem vendido, torna-se descartável (5). Nada escapa ao olho e ao comando do "Big Brother Business". Na terra do "God is Money", o primeiro mandamento é "comprai-vos uns aos outros" e ai dos que não puderem cumpri-lo (6).

Shalom: O Sonho de Deus

O sonho de Deus expressa-se nas Escrituras Hebraicas e nas Escrituras Cristãs com a figura do Shalom, da Paz. O Sábado, o ano sabático e o ano jubilar são manifestações deste sonho de Deus. O que é a Paz?

No anúncio evangélico o tema da paz é dominante. O início da aventura terrena de Jesus é dominado pelo canto de Maria, que enuncia exatamente os conteúdos da paz (Lc 1,51-55); o nascimento de Jesus é saudado pelo anúncio da paz aos homens que Deus ama (Lc 2,14), é o início de um caminho de paz (Lc 1,79). O fechamento da aventura terrena de Jesus é assinalado pelo dom da paz e do início da tarefa de levar a paz (Jo 20, 19-21); os apóstolos são enviados de cidade em cidade, de casa em casa, anunciando a paz e procurando os "filhos da paz" (Mt 9,35-38; Lc 10,3-6). O Reino que Jesus instaura é "justiça, paz e alegria no Espírito Santo" (Rm 14,17).

Qual é a validez semântica que o conceito "paz" tem para Jesus? O termo grego eirene tem um significado semelhant ao nosso termo usual, ou seja, ele significava uma situação de não-guerra. Mas no quadro cultural bíblico do primeiro testamento, no qual Jesus se situa e se move, o conceito tem, sem dúvida, uma dimensão muito mais complexa. Trata-se aqui do termo hebraico Shalom (7).

Paz - Shalom - é a perfeição de toda espécie de relação. Mais ainda, é a perfeição das relações no interior da ciração. Shalom tem a mesma dimensão e grandeza das relações entre seres humanos - sempre vistos como povo, e por isso relação com a vida do povo - que reflete a ordem e o projeto eterno querido por Deus para toda a criação.

Shalom significa a plena reconciliação de tudo e de todos(as): das pessoas com elas mesmas, com as outras pessoas, com os animais, com a natureza, com o cosmos. É a plena consciência de que tudo está relacionado, inter-relacionado e retro-relacionado.

O contrário da paz é a opressão. Opressão e abandono de Deus são uma única realidade, um único pecado, enquanto praticar o direito e a justiça, tutelar a causa do pobre e do miserável é conhecer a Deus (Jr 22,3.16-17). A paz, portanto, é definida, no contexto cultural de Jesus de Nazaré, como um sistema de relações feito de não-domínio, que se caracteriza pela benevolência gratuita, pela misericórdia e pela cura do débil. A justiça segundo Deus, a justiça do Reino, é por isso a tarefa histórica concreta de um caminho para a paz.

Jesus é o Messias porque ele traz a paz. A salvação da humanidade significa a reconciliação de tudo e de todas as coisas. A comunhão messiânica rompe a fatalidade da violência que pesa sobre a humanidade e oferece uma alternativa com condições de vida em contraposição ao círculo vicioso fatal da dominação e da violência. O verdadeiro pecado a humanidade é a prática da violência que conduz à morte. E a fonte da violência consiste em não querer ser mais filho/filha, irmão/irmã. É o que as Escrituras Hebraicas exprimem no relato do pecado de Caim e Abel (Gn 4,3-13), do pecado de Davi (2Sm 11,1-17;12,1-15) e do pecado de Acab e Jezabel (1 Rs 21,1-29).

Esta paz - reconciliação de todos com todos e com tudo, está presente na figura e na importância do Sábado. Uma releitura do relato da criação (Gn 1,1-2,4a) permite afirmar que o ponto de chegada do texto é o Sábado da criação e do Criador, o dia de descanso. É o dia da total e plena reconciliação de tudo com todas as coisas. O Sábado é a "coroa da criação". Somente ele é abençoado (8).

"O que Deus faz desde a eternidade?" - perguntava Santo Agostinho. "Ele atua em tudo o que se move, faz expandir a vida, ele inflama os profetas, suscita os líderes carismáticos e enche a todos nós de entusiasmo, mediante o qual continuamos a viver e a vibrar. O seu Espírito enche o universo e renova a estrutura do cosmos. Ele habita sua criação à semelhança da humanidade de Jesus habitada pelo Verbo Eterno", (9) nos impulsionando e sempre de novo nos reanimando na busca e construção da paz.

Enfim, o Sábado é a manifestação de que a paz é o grande projeto de Deus para a humanidade. Deus criou tudo e todas as coisas para a paz. Tudo está ligado e re-ligado. Esta dimensão cósmico-universal do Sábado se manifesta plenamente na Ressurreição de Jesus Cristo.

A ressurreição de Jesus atinge todos os âmbitos da história do mundo. Ela manifesta que a história tem um fim bom. Ela traz o futuro para o presente. "Mais ainda: a ressurreição patenteia a possibilidade de uma completa reconciliação, incluindo o passado e as vítimas. Não se garante apenas o futuro. Resgata-se também o passado. Ninguém é deixado definitivamente para trás. Deus não tem uma caixa de lixo para onde joga tudo o que aparentemente não deu certo. O que Ele amou, Ele também eternizou. Todos os seres serão resgatados e virão sentar-se à mesa do banquete da vida natural e divina". (10)

Somos Mestres e Possuidores!

No momento em que não queremos ser mais filhos(as), irmãos(ãs), instauramos como princípio articulador da nossa vida o senhorio, o poder, a dominação. Esta é a raiz do pecado. Raiz que se manifesta na árvore e nos seus frutos. O pecado não é algo abstrato. Ele se manifesta viva e concretamente na exploração da pessoa humana e na exclusão de multidões. Ele se corporifica nos 'deixados por conta' pela revolução tecnológica e pela globalização financeira. Pecado que se manifestou de maneira dramática no século XX, o século da técnica, do progresso científico, da produção inaudita de bens e, ao mesmo tempo, o século em que se mataram, de modo deliberado, aproximadamente 160 milhões de pessoas, por ódio de raça, de gênero, de credo religioso (11). O pecado do mundo se manifesta, na destruição atroz da terra, da água, do ar, dos animais, das plantas.

Cada vez mais a poluição e o lixo excede a capacidade de absorção e de conversão do planeta. As emissões de dióxido de carbono (CO2) quadruplicaram nos últimos 50 anos (12). Nos países industrializados, o volume de lixo gerado por habitante praticamente triplicou no decorrer dos últimos 20 anos. Os pobres - constata o relatório - são as pessoaas mais expostas aos efluentes gasosos e à poluição dos cursos de água. Estima-se que 2 milhões e 700 mil pessoas morrem cada ano devido à poluição do ar. 80% dessas vítimas são pessoas pobres, vivendo no meio rural nos países em desenvolvimento. No entanto, uma criança que nasce no mundo industrializado consumirá e gerará mais poluição, no decorrer de sua vida, do que 30 a 50 crianças que nascem nos países em desenvolvimento. Há uma crescente deterioração dos recursos renováveis: água, florestas, peixes, espécies vegetais e animais. O ritmo da extinção das espécies é aterrador. Durante a idade dos dinossauros, espécies tornaram-se extintas a uma taxa de, aproximadamente, uma a cada mil anos; os primeiros estágios da idade industrial, as espécies morriam a uma média de uma por década. Hoje perdemos três espécies por hora (13).

O cosmos e a natureza nada mais são do que mercadorias, objetos, coisas das quais nos apoderamos. Somos os senhores! Este senhorio e poder não mais nos permitem vê-las como inter-relacionadas e retro-relacionadas. Já não conseguimos mais ver na água, na terra, no sol, no vento e no fogo, irmãos e irmãs. Eles não são mais do que mercadorias, coisas. Nós somos os seus possuidores!

Esse domínio da lógica e da "potência absoluta" é levado ao auge por Hobbes quando afirma: "O direito da Natureza, mediante o qual Deus reina sobre os homens e pune aqueles que violam suas Leis, deve ser derivado não do fato de Ele o ter criado, como se exigisse obediência como gratidão pelos seus benefícios, mas do seu Poder Irresistível" (14). "Não bondade e verdade, mas poder tornou-se a qualidade principal da divindade" (15).

Esse poder irresistível que se substantiva na relação com a natureza, é formidavemente expresso por Descartes, no Discurso do Método, em 1637, quando evocando "alguns conhecimentos gerais" que adquirira na física, ele afirma: "Não os poderíamos ter mantido escondidos sem pecar gravemente contra a lei que nos obriga a procurar o bem geral de todos os homens. Pois eles me fizeram ver que é possível chegar aos conhecimentos que são úteis para a vida, e que em vez desta filosofia especulativa que é ensinada nas escolas, se pode encontrar uma prática, pela qual, somos capazes de conhecer a força e a ação do fogo, da água, do ar, dos astros, dos céus e de todos os outros corpos que nos cercam, tão distintamente como conhecemos os diversos ofícios de nossos artesãos, e assim nós os podemos empregar usando-os para o que lhes é apropriado, e assim nos tornamos mestres e possuiores da natureza" (16). "Mestres e possuidores da natureza!" Este é o ideal que está no coração de toda a dinâmica do Ocidente nos últimos séculos.

A minha solidariedade com o pecado do mundo

Mas na experidência dos EE o(a) exercitante não só vê a realidade do mal concretizada em estruturas e dinâmicas sócio-culturais, mas ele/ela mesmo(a) se percebe conivente, solidário(a) com o mal presente no mundo e no universo. A experiência dos EE, na meditação sobre o pecado, permite que o(a) exercitante se flagre solidário(a) com a raiz do pecado no mundo que se manifesta na exploração das pessoas humanas por outras, na guerra que fazemos contra os outros porque pensam e agem diferente de nós, porque têm outra crença. A raiz do mal no mundo é a mesma presente em nós quando não queremos ser mais filho/filha, irmão/irmã. Indignamo-nos frente ao mal que causa tantas vítimas e tanto sofrimento. Espantamo-nos com a capacidade da pessoa humana de praticar tanto mal. Espantados, perguntamos: Como a pessoa humana foi capaz de destruir e devastar de maneira tão dramática a natureza, contaminando a terra, o ar, a água, enfim, as fontes da vida? E fez tudo isto em nome do progresso, do desenvolvimento, da ciência e, o mais incrível, em nome de Deus. Sim, a leitura equivocada dos primeiros capítulos do livro do Gênesis legitimaram esta destruição e devastação. Flagramo-nos co-participantes deste mal quando, também nós, no micro-âmbito local, fomos opressores, machucamos , ferimos, pisamos... e achando tudo muito normal e natural. Os EE são o tempo propício para a experiência concreta desta nossa condição, para captarmos, existencialmente, a raiz, a fonte desta nossa limitação que está na decisão: "Não quero ser mais filho(a)! Não quero ser mais irmão(ã)!"

A graça de conhecer o pecado

A graça que pedimos nesta meditação é a de conhecer o pecado, seu dinamismo, sua iniquidade e maldade. Pedimos a graça de sentir vergonha, dor pela nossa solidariedade com o pecado no mundo, no cosmos. A graça pedida é a de, conhecendo o mal, poder lutar contra ele. O que significa pedir esta graça? Qual é o seu sentido mais profundo?

Vivemos em uma sociedade que banalizou o mal (17). O psiquiatra e psicanalista C. Dejours cunhou o conceito de "banalização da injustiça social" (18). Ele descreve esta banalização como "a exclusão e a adversidade infligidas a outrem em nossas sociedades, sem mobilização política contra a injustiça que "derivam de uma dissociação estabelecida entre a adversidade e a injustiça, sob o efeito da banalização do mal no exercício de atos civis comuns, por parte dos que não são vítimas da exclusão(ou não o são ainda) e que contribuem para excluir parcelas cada vez maiores da população, agravando-lhes a adversidade". Trata-se, segundo o autor, "nada de excepcional. Pois se trata da própria banalidade! Não só banalidade do mal, mas a banalidade de um processo que é subjacente à eficácia do sistema liberal econômico. Creio poder afirmar que a maioria de nós participa dessa banalização. Devo acrescentar que, se a banalização do mal nada tem de excepcional, por seu subjacente ao próprio sistema liberal, ela também está implícita nas vertentes totalitárias, inclusive do nazismo" (19). "O problema é o do desenvolvimento da tolerância à injustiça. É justamente a falta de reações coletivas de mobilização que possibilita, por exemplo, o aumento progressivo do desemprego e de seus estragos psicológicos e sociais, nos níveis que atualmente conhecemos" (20)."A banalização é um processo, graças ao qual um comportamento excepcional, habitualmente impedido pela ação e o comportamenot da maioria, pode ser erigido como norma de conduta, ou seja, como um valor" (21).

A banalização do mal e da injustiça faz com que estes sejam feitos naturalmente, ou seja, para usar uma linguagem mais corriqueira, 'numa boa'. Hannah Arendt estudando Eichmann, o carrasco nazista que mandou milhares de judeus para as câmaras de gás o descreve como um 'homem normal'. Ele não era truculento, de hábitos grotescos. Não! Ele era um homem gentil e bem relacionado. Acima de tudo era um homem zeloso. É o que o psicanalista C. Dejours descreve como 'normopatia'. As três características da 'normopatia' são: a indiferença para com o mundo distante e colaboração no "mal tanto por omissão quanto por ação"; a suspensão da faculdade de pensar, substituindo-a pelo recurso aos estereótipos dominantes, tais como: 'todo mundo faz, por que não vou fazer?', 'não adianta agir diferente, porque não tem jeito', 'se eu não o fizer, o outro o fará'; a abolição da faculdade de julgar e da vontade de agir coletivametne contra a injustiça (22). Portanto, a "normopatia" é uma das manifestações mais evidentes da banalização do mal e da injustiça social, hoje.

Uma outra manifestação da banalização do mal e da injustiça social é o retorno do 'mecanismo sacrificial'no mundo moderno (23). Na guerra de todos contra todos, a coesão social se fragiliza. É quando vemos a multiplicação dos linchametnos sacrificiais simbólicos dos quais a mídia é o instrumento. Como a coesão é continuamente ameaçada, são necessários sacrifícios para a restaurar. O efeito pacificador do sacrifício é cada vez menos durável, de tal maneira que o mecanismo do bode expiatório se reproduz por si mesmo, em detrimento da justiça. A caça ao culpado pode corresponder a uma demissão da política. Constatamos, assim, o retorno da sociedade democrática para uma arcaica selvageria. Os menos aptos, os "segundos lugares" no mundo da competição, os excluídos são as vítimas sacrificiais da "democracia de mercado". Sob uma forma edulcorada, a tal ponto que ele é raramente percebido, re-instauramos um ritual muito antigo: o da morte fundadora.

Ora, esta reaparição sub-reptícia do rito sacrificial reconstitui mecanicamente as unanimidades que legitimam novas formas de perseguição. O antropólogo René Girard mostrou que o sacrifício só tem sentido e exerce uma função sob a expressa condição de que cada ator do linchamento esteja convencido da culpabilidade do que foi linchado. A unanimidade é uma das componentes do mecanismo sacrificial. Ou seja, unicamente o sentimento de inocência dos perseguidores legitima a permanência da perseguição.

Quem são os lichados, os sacrificados, hoje? Os desempregados, os trabalhadores rurais sem terra despejados massacrados, os indígenas, as vítimas da violência, a natureza depredada. A tudo assistimos; de tudo tomamos conhecimento. Mas... nos habituamos e passamos a achar tudo normal... até necessário. "A globalização é assim. Não tem jeito! Se não entrarmos ficaremos de fora! É pior!" - pensamos ou chegamos até a dizer. Esta é a lógica da necessidade do sacrifício que se instaura no meio de nós. "Tem-se a impressão de que as velhas fatalidades primitivas, provisoriamente descartadas pela luz profética e evangélica, ressurgem, hoje, sob a máscara dos imperativos científicos e técnicos" (24). Sob estes imperativos, em uma economia cada vez mais financeirizada, não temos nenhuma dificuldade, por exemplo, em aplicar o nosso dinheiro, seja pessoal, seja das instituições ou congregações religiosas, no banco que nos dá melhor rendimento, nos atende melhor, sem nos preocuparmos em saber onde este nosso dinheiro é aplicado, o que ele está ou irá financiar (25).

"Pai, livra-nos do mal!"

Daí emerge o sentido profundo do pedido que o exercitante faz nesta meditação. Pedimos a graça do conhecimento do pecado. Conhecimento espiritual, isto é, não meramente intelectual, teórico, mas profundo, íntimo, como é o conhecimento na concepção paulina (cf Fl 1,9). Trata-se de um conhecimento existencial, que chega até o fim das coisas e até o fim em suas consequências. É ele que nos permite reagir. É ele que possibilita que não banalizemos o mal, a injustiça social, enfim, o pecado. Este conhecimento é dom de Deus. A Ele o suplicamos. Tanto mais dom quanto mais nos morfinizamos contra o mal. Já não mais o sentimos. Já não mais reagimos. A injustiça, a violência, o crime, o desemprego, crianças na rua, trabalhadores rurais sem terra sendo massacrados, tudo vai nos parecendo normal, natural, talvez, necessário. É a banalização do mal, da injustiça social. A nossa sensibilidade amorteceu. Em uma sociedade que é capaz de se sensibilizar com a morte de uma princesa ou de um automobilista, mas que é incapaz de reagir à morte de milhares e milhares de pessoas levanta-se a questão: "Como estamos aprendendo a reconhecer o que deve nos sensibiizar? Quando devemos ou podemos sentir compaixão pelos que sofrem ou são vítimas de crueldades?" (26)

A graça que pedimos nesta meditação se insere na linha da oração de Jesus: "Pai, livra-nos do mal!" É este o pedido que Jesus nos ensina a rezar no Pai-Nosso. O mesmo Jesus, quando reza pelos seus discípulos, pede: "Pai, não peço que os retires do mundo, mas livra-os do mal!" (Jo 17,15). É a oração que fazemos na celebração eucarística quando, após a oração do Pai-Nosso, suplicamos: "Livra-nos, ó Pai, de todos os males e dá-nos hoje a tua paz!" É esta a graça que pedimos. Este é o fruto desta meditação.

Agir como perdoados!

Conhecer o pecado, sentir vergonha e dor pela nossa solidariedade no mal, enfim, fazer a experiência concreta, existencial da nossa participação no pecado do mundo é, na dinâmica dos EE, fazer igualmente a experiência do imenso e insondável amor de Deus que se manifesta no seu perdão. O que significa o perdão de Deus? O perdão de Deus signfica que Ele aposta em nós. Apesar de toda a nossa maldade, a nossa capacidade de machucar, ferir, pisar e romper as relações com as outras pessoas, com a natureza e conosco mesmos, Deus nos ama. Um amor que se manifesta na aposta que faz na nossa capacidade de mudar a orientação da nossa vida. Ele aposta na nossa capacidade de refazer as relações conosco mesmos, com as outras pessoas e com a natureza. A experiência do perdão nos aponta para a possibilidade de reverter a dinâmica do pecado, recolocando-nos na do seguimento de Cristo. Neste sentido, a experiência viva do perdão de Deus suscita em nós o imenso desejo de lutar contra o mal, de nos des-solidarizarmo-nos do pecado que estraga a vida dos(as) irmãos(ãs) e da natureza. A meditação sobre o pecado nos "ajuda a re-criar a criação e a reconciliá-la novamente com Deus, de modo que Ele possa se alegrar nela, como no primeiro Sabbath, e encontrá-la formosa e justa, cheia de paz e verdade" (27). O perdão de Deus em nossas vidas nos manifesta a ternura e a paixão do amor de Deus por mim, por nós. Este imenso e profundo amor de Deus é que nos joga, nos impulsiona na luta contra a injustiça, contra a opressão, enfim, contra tudo o que rompe a inter e a retro-relacionaliade. É a experiência pessoal do amor incondicional de Deus, que fazemos através do seu perdão, que lança o exercitante aos pés da cruz. Na contemplação do Cristo Crucificado emergem as perguntas: "O que eu fiz por ti?O que eu faço por ti? O que farei por ti?"

Enfim, a meditação sobre o pecado nos EE nos dá a clara consciência da necessidade de inventarmos de novo o mundo que erige o poder, a força, a competição, o egoísmo narcísico como paradigma civilizacional. "É urgente que livremos o futuro de violência que emana do mundo moderno!" (28). A experiência do perdão nos possibilita compreender que "não é na nossa dominação, mas na nossa esperança que o Deus que vem está presente pelo seu espírito vivificador. Sua graça não é poderosa no nosso poder, mas na nossa fragilidade, lá que ela vivifica. Somente os que sofrem com o Cristo reinarão com Ele (2 Tm2,12)" (29). É a mensagem central do colóquio da misericórdia que conclui a meditação sobre o pecado nos EE."

 

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O autor: Pe. Inácio Neutzling é professor na UNISINOS, de São Leopoldo, RS, presidente do CEPAT (Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadroes), em Curitiba, e Assistente Nacional da Pastoral Operária.

Notas:

1. "Vivimos en un mundo roto. Reflexiones sobre Ecologia", Promotio Iustitiae, 70/1999, publicado pelo Secretariado do Apostolado Social da Companhia de Jesus, Roma, p.23.

2. Cf. Tomás de Celano, "Segunda Vida de São Francisco", n. 165 em: São Francisco de Assis. Escritos e biografias de São Francisco de Assis. Crônicas outros testemunhos do primeiro século franciscano, Vozes, Petrópolis, 1981, p. 404.

3. Sobre a cortesia, característica importante de Francisco de Assis, veja, Fioretti, cap. 37 em: São Francisco de Assis... op.cit. p. 1155; Tomás de Celano, "Segunda Vida de São Francisco de Assis", n. 92 e "Legenda Perusina", n. 48.

4. Sobre este conceito cf. BOFF, Leonardo, Saber Cuidar. Ética do Humano - Compaixão pela Terra, Ed. Vozes, Petrópolis, 1999, p. 92-106.

5. Por exemplo, POLANYI, Karl, A Grande Transformação. As origens da nossa época, Campus, Rio de Janeiro, 1980; DUMONT, L., Homo aequalis, Genèse et épanouis-sement de l'idéologie économique, Gallimard, 1977.

6. A comparação é de Jurandir Freire Costa, "A intencionalidade da dor. Cultura do consumo defende a privacidade corroída em público pela ganância dos seus pretensos defensores", Folha de São Paulo 09/11/97.

7. Aqui seguimos, salvo outra indicação, CHIAVACCI, Enrico, Teologia Morale. Morale della vita econômica, política di comunicazione, Assis, 1990, 3 vols. O autor, um dos maiores teólogos morais, hoje, constrói toda a sua teologia moral econômica e política, a partir do conceito teológico de Shalom.

8. MOLTMANN, J., Deus na Criação. Doutrina Ecológica da Criação. Vozes, Petrópolis, 1993; sobre a centralidade e o significado profundo do Sábado e a sua observância nas Escrituras Hebraicas e Cristãs cf. BEAUCHAMPS, P., La Loi de Dieu, Ed. du Seuil, Paris, 1999.

9. BOFF, Leonardo, Ecologia, Grito da Terra, Grito dos Pobres. Ática, São Paulo, 1995, p. 259.

10. MOLTMANN, Jurgen, O Caminho de Jesus Cristo. Cristologia em dimensões messiânicas, Vozes, Petrópolis, 1995, 2a. ed., p. 278.

11. "O século XX foi o século dos extremos". É esta a definição dada por um grupo de intelectuais italianos liderados por Gianni Vartimo que fazem um balanço do século passado, no livro Grande Atlante Geográfico e Storico. Como nenhum outro século, defendeu a vida e, ao mesmo tempo, destruiu uma enorme quantidade de vidas. A população mundial no século XX cresceu quatro vezes, passando de 1,6 bilhão de pessoas para 6,2. No mesmo período a esperança de vida aumentou 30 anos, graças à medicina, uma alimentação melhor e condições e horários de trabalho menos pesados. "Ao mesmo tempo, nenhum outro século suprimiu de modo deliberado, com armas ou outros meios, uma massa tão grande de pessoas. humanas. Ao menos 160 milhões de vítimas é a conta dos massacres do século" - Cf CEPAT Informa n. 60/2000, p. 23-24;

12. Este dado e os que seguem são do Rapport Mondial sur le é Developpement Humain, 1998, publicado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). A edição francesa, que é a nossa fonte, foi editada por Economica, Paris 1998.

13. RIFKIN, Jeremy, O Século da Biotecnologia. A Valorização dos Genes e a Reconstrução do Mundo, Makron Books, São Paulo, 1999.

14. Hobbes, Leviathan, part II, cap. 31; Carl Schmitt, Politische Theologie: Vier Kapitel zur Lehre von der Souveranitat, Munique, 1935, pp. 71, 49-66, citados por MILBANK, John, Teologia e Teoria Social. Para além da razão secular, Ed. Loyola, São Paulo, 1995, p. 30.

15. MOLTMANN, Jurgen, O Deus da Criação ... op. cit., p.51.

16. DESCARTS, René, "Discours de la méthode", 1637, in Oeuvres et Lettres, Paris, Gallimard, La Pléiade, 1952.

17. ARENDT, Hannah, Eichmann em Jerusalém. Um relato sobre a banalidade do mal, Companhia das Letras, São Paulo, 1999;

18. DEJOURS, Christophe, A Banalização da Injustiça Social, Ed. Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro, 1999. Uma síntese do livro pode ser encontrada no CEPAT Informa n. 52/1999, p.47-49;

19. DEJOURS, C., obra citada, p.22. O sublinhado é nosso.

20. DEJOURS, C., obra citada, p. 24;

21. DEJOURS, C., obra citada, p. 117;

22. DEJOURS, C., obra citada, p. 117;

23. A expresão é de J. C. Guillebaud, La Refondation du Monde, Seuil, Paris, 1999. Uma síntese do livro pode ser encontrada em CEPAT Informa n. 59/2000, p. 3l-43.

24. Citado por J. C. Guillebaud, obra citada.

25. Sobre este tema cf NEUTZLING, Inácio, "As Regras no Ministério de distribuir Esmolas - EE nn. 337-344. Atualidade e importância, hoje", Itaici n 34 (dez/1998), 13-24.

26. COSTA, Jurandir Freire, loc. cit. na nota 6;

27. "Vivimos en un mundo roto", loc. cit., p.33.

28. MOLTMANN. J., "Le role du théologique dans le projet de la modernité", Revue du Thélogie et Philosophie 128/1996, p.49-56. Este artigo foi também publicado no livro Dio nel Progeto Moderno. Contributi per una rilevanza pubblica della teologia, Queriniana, Brescia, 1999. A tradução portuguesa deste artigo pode ser encontra em CEPAT Informa, edição especial, Páscoa 2000;

29. MOLTMANN, Jurgen, "Le Rôle..." art. cit. Moltmann, pertinentemente, lembra: "O Cristo foi vitorioso não no apocalíptico Harmagedon, como o proclamou Carl Schmitt, ideólogo da relação amigo-inimigo, mas sobre o lugar histórico do Gólgota. Lá, o Deus que vem já está presente na história".

 

 

 

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