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Contra a Grana

texto por João Paulo, editor de Cultura - Jornal "Estado de Minas", Caderno Pensar, de 10/08/2002. Publicado aqui com autorização do autor, que agradecemos.

"O Capitalismo é um modo de produção (quem não gostar do conceito que escolha outro) muito engraçado. A cada dia que passa é mais modo e menos produção. O que vale é a grana. A proeminência do dinheiro no mundo contemporâneo é tanta e tão inquestionável que nos obrigou a uma ginástica mental que fez do conceito e do valor da liberdade uma mera conquista de mercado. A identificação pura e simples de liberdade com liberdade de mercado é mais significativa do que parece à primeira vista. Muito mais que denegar a política, resumir a sociedade e paralisar as forças de contestação, o mercado substitui hoje a própria realidade. Antes se dizia que dinheiro traz felicidade. Hoje, todos parecem concordar que dinheiro é felicidade.

Heráclito, que já foi chamado de O Obscuro, que filosofava quando a moeda era ainda uma realidade iniciante, mostrou muita clareza ao atacar seus conterrâneos: "Que a riqueza nunca lhes falte, efésios, para que fique comprovado que praticais o mal". Heráclito, como Diógenes, sabia que o que vale a pena, como a luz do sol que aquece o corpo, não se compra. nem o amor, nem a amizade. As realidades maiores se dão ao engenho e ao coração de graça, ou não se dão. Isto não signfiica que o dinheiro não valha, mas que não vale em si. Num texto recente, o filósofo norte-americano Marshal Berman (aquele do Tudo que é sólido desmancha no ar) mostrou como no mais capitalista dos livros (mesmo sendo uma crítica ao capitalismo), O Capital, o que conta são os personagens. Os trabalhadores de Marx são realidades humanas porque são pessoas, não porque gerem mais-valia e ancorem conceitos e números. Lido desta forma, O Capital é uma súmula de época, como a Comédia Humana ou a Terra Desolada.

Mas esta história de dinheiro invadiu de tal forma o discurso social que não é mais possível falar em nada sem que haja uma quantificação monetária. A cultura, por exemplo, passou a ser julgada e analisada a partir de seu custo, de seu retorno ou da mais torpe tradução destes dois elementos, que é a aceitação pública construída de forma prévia e manipulável. Houve um tempo em que este processo ganhava o nome de ideologia. Uma boa análise da cultura passava necessariamente pela forma como era consumida enquanto algo que não era cultura. Hoje, isso também se dissolveu no ar. A eleição de Paulo Coelho para a Academia Brasileira de letras não é uma exceção, mas a própria regra. Como no cigarro, que dá câncer e promove shows de rock (não necessariamente nesta ordem), o slogan de hoje é: "ao sucesso".

Se pensamos em outros momentos da vida social, como a relação com as cidades, nossa forma de convvência não é menos corrompida pela força da grana "que ergue e destrói coisas belas". A cidade não é mais terreno de sonhos e festa. Quando se viaja, por exemplo, ninguém traz dos outros lugares lições de vida, mas lembranças mediadas pelo gasto e aproveitamento. Ítalo Calvino, em seu livro sobre as cidades , conta a história de cidades com nomes de mulheres, que deixam nos viajantes impressões sensuais de verdades e alegrias. E conclui, como se fosse um método de análise da qualidade de vida: há duas maneiras de não sofrer. Uma nos afunda no sofrimento como se não houvesse saída, e aí nos acostumamos. Outra está no aprendizado, na capacidade de reconhecer, em meio ao inferno, o que não é inferno e, com isso, preservá-lo e abrir espaço.

O inferno do dinheiro hoje é tão potente que nos turva o olhar para lugares onde ele não existe. Por incrível que pareça, até mesmo na economia o poder do dinheiro é tão grande que a produção - que deveira gerar o valor - fica em segundo plano. Quem manda hoje são os investidores, esta entidade inquestionável que só quer saber de mais dinheiro. "Como reagiu o mercado?", pergunta-se a cada movimento do mundo sob o sol, dos atos terroristas ao regime das chuvas. Houve tempo em que uma ética obrigava que, para ganhar mais dinheiro, fosse necessário oferecer mais produção. A lógica podia até levar à exploração do trabalho, mas grava emprego e resultado prático. Hoje a produção se volatilizou de tal maneira que tudo se torna desnecessário na trama de gerar riqueza pela riqueza: o emprego, a convivência, os projetos de futuro.

De uns tempos prá cá os economistas têm buscado recuperar, na crítica do captalismo do século XIX, com seus sonhos coletivistas e falanstéricos, uma alternativa para o capitalismo do século XXI. Não basta ser crítico, tem que propor alternativas. Neste campo de alternativas à globalização, existe a chamada economia solidária, com suas proposições em torno das cooperativas de produção, crédito e consumo; a economia popular, que aparece como proposta que não se liga necessariamente à identificação ideológica, apostando em valores comunitários, antes que socialistas; e soluções que passam por reformas do sistema produtivo, sobretudo da posse e possibilidade de produção agrícola, a partir de uma reforma agrária consequente.

Há alguns anos, havia uma sede reformista enorme no Brasil. Falava-se em reforma da educação, reforma da assistência social, reforma sanitária. Este movimento, altamente meritório, gerou uma pletora de propostas humanas, generosas, civilizadoras. Mas burocráticas demais. Como se, para derrotar o monstro, fosse necessário absorver sua lógica e visão de mundo. Os propósitos simples devem ser, como o nome diz, simples e propositais. Um teórico da reforma sanitária, Romualdo Dâmaso, que buscou criar um diálogo entre engenharia institucional do setor saúde e as práticas alternativas orientais, pouco antes de morrer escreveu um artigo luminoso em que dizia que estava na hora de ser reformista de menos e sanitário de mais. Ninguém entendeu bem. Até hoje a saúde é um problema para nós, brasileiros.

Estes são desafios presentes: negar o poder do dinheiro como ferramenta de alegrias; afirmar a necessidade de produção que gere bens populares, emprego e dignidade; acreditar nos desvãos de luz no inferno das sombras das cidades com nomes de mulheres, homens e pedras; e propor ações que sejam mais reais que imaginárias. É quase um programa político. Mas pode ser uma maneira de viver a vida com nossos amigos e amores. Ver, nos olhos dos que sabem nosso nome e conhecem nossas fraquezas, uma vontade de dividir sonhos e acreditar no futuro. Fora isso, fica só a saída de se acostumar com o inferno e correr atrás do dinheiro."

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